
Era a primeira vez que ia ficar no Buçaco Palace, e foi há mais de 30 anos. Tínhamos comprado um carro novo e fomos fazer a rodagem, porque nessa altura era o que se fazia nos carros novos. Estávamos em Novembro, e fizemos todas as curvas da serra que nos levavam ao hotel no meio do nevoeiro, o ambiente perfeito para chegar ao palácio de arquitetura romântica e fachadas inspiradas no manuelino e na grandeza dos Descobrimentos portugueses. Uma visão magnífica, de sonho, que se repetia nas salas interiores. A partir daí, passámos a ir com frequência passar uns dias ao hotel com a nossa filha, que até bem crescida tinha um medo terrível dos olhos vermelhos do guerreiro de armadura que ainda hoje está no meio da escadaria principal. Após um grande hiato, regressei recentemente ao hotel para passar 3 dias. Está praticamente igual, as casas de banho plasmadas nas ultimas obras há catrapumba de anos, com os chuveiros a debitarem quase sem pressão, mas qb para nos lavarmos, mas com um otimo tamanho, as janelas que abrem mal mas que são lindas e ogivais, a mobília do quarto no género mobília tipo hotéis das termas de há 70 anos, com psiché (todo o móvel que tenha um espelho grande para as vaidades, muito presente nos filmes do principio do século XX e cujo nome deriva da belíssima deusa grega Psyche), guarda-vestidos e cortinas gigantes com panos verdadeiras armadilhas de pó. Os quartos não têm ar condicionado, mas o colchão da cama é bom e as almofadas também. Em suma, dorme-se bem. E por um preço incrível: agora em julho a noite não chega a custar 140 euros, o que lhe permite dormir no palácio de D. Carlos (o rei não incluído no pacote).



Não é um hotel em que o palácio serve de receção e há construções modernas. É o palácio que D. Carlos mandou construir em 1888 e que ficou pronto em 1907, implantado na mata do Bussaco e destinado a servir de base para caçadas na enorme mata. Foi desenhado por um arquiteto italiano para ser uma espécie de ode aos descobrimentos no meio das ondas verdes da floresta.
O rei seria assassinado mo ano seguinte e nunca chegou a ir ao palácio. O seu filho D. Manuel, que sobreviveu ao atentado, passou por lá, e parece ter pernoitado.


As zonas comuns são fabulosas e valem a pena a estadia. Em novembro, com a gigantesca lareira acesa, no meio das pinturas de Carlos Reis, é aconselhável ler um livro, bordar, ou simplesmente ficar em total ócio com um copo de vinho do Bussaco por companhia (deixe lá o scroll do telemóvel) no enorme salão. Se o tempo estiver de feição, recomenda-se a varanda exterior do restaurante, de uma beleza e serenidade incomparáveis. Há sempre uma deliciosa fatia de morgado do Bussaco (nozes, mel e doce de ovos) para o acompanhar (a si). No espaço exterior do Palácio há dezenas de painéis de azulejos azuis e brancos de Jorge Colaço que ilustram os Lusíadas, os autos de Gil Vicente e a Guerra Peninsular ( a guerra que opôs franceses a ingleses, espanhóis e portugueses no início do século XIX e que contém as Invasões Francesas).
O tempo passa no ritmo que quisermos, entre caminhadas pela mata, por exemplo até à Cruz Alta de onde se desfruta uma paisagem 360 º), as fatias de morgado e as refeições. O meu conselho é que jantem no hotel e vão almoçar ao Luso (onde direi num próximo post, juntamente com informação sobre o Convento doa Carmlitas Descalços ).
Comer na casa de jantar do Mesa Real é um luxo. O teto é em caixotão e uma pequena maravilha de estilo mourisco, fazendo contraste de cor com a pedra e exibindo uma opulência de luzes. Jantei lá duas vezes, sendo a primeira um menu de degustação e a segunda uma refeição mais simples. Gostei imenso das duas refeições acompanhadas pelo vinho do Bussaco. Pessoal extremamente simpático, tendo o chef Nelson Mateus acedido ao meu pedido de mudar um acompanhamento de puré de batata trufado por batata frita, que nem consta da carta. Veja a refeição nas fotos e nas legendas. Foi a primeira vez que fiz no Bussaco uma refeição a condizer com o ambiente, inspirada na portugalidade das telas de João Vaz que contam a história da viagem de Vasco da Gama à Índia por Luís de Camões. Atualmente, o menu de degustação de 7 unidades custa 140 euros. Recomendo que acompanhem com os Vinhos do Bussaco, que se destinam exclusivamente aos hóspedes. Com os dois jantares experimentei um tinto e um branco recentes, mas a garrafeira tem vinhos dos anos 40. As castas são Baga da Bairrada e Touriga Nacional do Dão.

Jantar Primeiro dia: menu degustação
caldo de cozido, salada de queijo chèvre, caril vegetariano, tornedó de wagyu




Jantar segundo dia
