Conversas À Mesa

O DESERTO NO MEIO DO OÁSIS

UMA VISITA AO CONVENTO DE SANTA CRUZ DO BUSSACO

Os 100 hectares da Mata do Bussaco passaram da posse do Mosteiro da Vacariça para a da Sé de Coimbra em 1094, na altura “uma brenha bem lusitana”, segundo Sant’Anna Dionísio no Guia de Portugal que menciona a mata, o convento dos Carmelitas Descalços e o Palácio. Foi o provincial da Ordem do Carmo quem se deixou encantar pelo local,  comprou a mata a D. João Manuel por 180 000 réis e projectou a construção do convento, um Deserto no meio de um Oásis. Aqui alguns monges viviam em permanência, enquanto outros vinham em curtos períodos. Alguns deles viviam por longos períodos em capelas de eremitagem coocadas em sítios elevados e dedicadas a santos.

 

A construção do convento de Santa Cruz do Bussaco é feita pelos próprios monges e tem início em 1626 terminando em 1628/9, com extrema simplicidade de materiais, como os seixos brancos e pretos, a madeira e a cortiça, mas com cuidados estéticos. A alternância dos seixos de duas cores permitiu fazer uma composição de grande efeito. Do lado prático, para fazer frente ao frio e à humidade, surgiu o revestimento corticeiro, ainda hoje em ótima condição e no estado original. Apesar da sua simplicidade, o convento merece uma visita calma, e faz-nos sentir bem no seu interior. O que está visível é um conjunto de pequenas celas no centro das quais está a igreja. A estatura e a importância desta parecem demasiadas para o convento, mas há que lembrar que este era bem maior do que se apresenta hoje, uma vez que grande parte foi deitada abaixo para a construção do palácio.   

 

A Ordem dos Carmelitas Descalços teve origem em Espanha no século XVI, sendo um dos ramos resultantes da reforma da Ordem do Carmo: Santa Teresa de Ávila fundou o ramo feminino, e S. João da Cruz , o masculino. Ambos procuravam uma vida simples de pobreza extrema, oração, silêncio e vida contemplativa em conventos, que denominavam Desertos, situados em zonas pouco populadas, numa replicação da vida dos primeiros eremitas. A ordem masculina veio pouco depois para Portugal. Os monges trabalhavam com o mundo vegetal das plantas e das mezinhas, pelo que a ideia de plantar uma mata, e ser responsável por ela. não tinha nada de estranho. O silêncio era de rigor, sendo a fala apenas permitida ao prior e a mais três monges, sendo um deles o porteiro. Alguns monges tinham uma autorização epsecial para proferir palavras de quinze em quinze dias.

 

A mata e, mais tarde, o convento foram durante muitas e muitas dezenas de anos interditos às mulheres e à sua habitual propensão para perturbar os homens. No caso vertente,  os monges Carmelitas Descalços, tendo essa proibição saido em bula do Papa Gregório XV, datada de 1622, e estando ainda hoje visível na entrada pela porta de Coimbra. D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, decidiu visitar o Bussaco numa viagem empreendida em 1693, após ter ficado viúva do monarcoainglês Carlos II. Os monges ficam horrorizados com a ideia e resolveram abrir uma nova porta, a da Rainha, a fim de que esta evitasse a entrada pela porta de Coimbra onde estava afixada em pedra a proibição da entrada de mulheres. As instâncias superiores intervieram, gerando uma tremenda tempestade que afasta a rainha do Bussaco. Nos princípios do século XVIII ali se refugiaram os Meninos de Palhavã, três filhos bastardos de D. João V , sendo um deles da Madre Paula. A primeira mulher a entrar será D. Maria II, em 1852, com pompa e circunstância.

 

No século XVII, além do convento, os Carmelitas fizeram também uma via sacra de 3 km ao longo de 20 cruzes em pau-brasil que replicavam com precisão os percursos da Prisão e da Paixão empreendidos por Cristo na antiga Jerusalém. O percurso começa na Cruz Alta, de panorama grandiloquente, e acaba no convento.  

No fim deste mesmo século, a Igreja achou as cruzes coisa pobre e foram edificadas as capelas, a fim de dar mais importância à Via Sacra. Mas este upgrade ainda não foi suficiente e, no século seguinte, foram produzidas grandes figuras em cerâmica e pedra, que recriavam as cenas de cada Estação.

No final do século XIX, o governo encomendou novas figuras para as capelas a Rafael Bordalo Pinheiro, que apenas conseguiu realizar nove até à sua morte. Essas nove nunca chegaram ao seu destino, encontrando-se hoje no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha. E, para substituir estas, foram encomendadas, em 1938,  ao escultor Costa Motta (sobrinho) novos grupos de estátuas ilustrativas em barro. Essas encontraram com sucesso o seu caminho para as capelas, mas estão atualmente em mau estado, porque o povo católico faz pontaria à cabeça dos legionários romanos que maltrataram Cristo, abrindo grandes buracos nos seus capacetes,  enquanto o povo anti-clerical manda pedras aos santos e às santas, destruindo-lhes os mantos.  

Além dos inúmeros passeios através da serra, nomeadamente à Cruz Alta, é indispensável a caminhada através do Vale dos Fetos, plantados no fim do século XIX e que hoje são verdadeiras árvores, numa alternância de sombra e luz. É uma forma de fugir ao calor, uma vez que a água que corre em todo o lado concede uma enorme frescura ao passeio. A ver também neste percurso o Lago Grande (ao fundo da escadaria da Fonte Fria) e o Lago Pequeno, com farta bicharada, nomeadamente esquilos vermelhos (de todas as vezes que lá fui nunca vi nenhum). 

A serra do Bussaco foi ainda local de batalha na Terceira Invasão Francesa, a 27 de setembro de 1810, tendo saído vencedoras as forças luso-inglesas (o mais correto é anglo-lusas uma vez que as chefias eram inglesas, e o número destes soldados superior ao nosso) sob o comando de  Wellesley, visconde de Wellington. O franceses eram comandados por Massena e, vindos de batalhar todo o caminho através de Espanha, traziam ainda 65 000 homens. As nossas forças tinham 52 000 homens, dos quais 25 000 eram portugueses. Não é por acaso que as cargas iniciais de baioneta destas batalhas napoleónicas estão nos meus pesadelos, e provavelmente nos vossos,  uma vez que foram responsáveis por grande parte dos mortos nessa batalha: 4 500 mortos franceses e 1 200 do nosso lado, tendo os corpos ficado disseminados pela mata. Os Carmelitas trataram vários feridos de ambos os lados.

Wellington ficou hospedado no convento, onde ainda hoje se pode visitar a cela onde dormiu e a oliveira onde terá prendido o seu cavalo. Há também um obelisco comemorativo colocado no local exato da batalha que, embora não tenha coartado a invasão francesa, deu um grande golpe nas forças de Massena.

 

Em 1834, com a Revolução Liberal e a extinção das ordens religiosas, o convento (na altura com 24 monges) e a mata foram abandonados e degradaram-se, embora durante alguns anos o convento continuasse a abrigar viajantes da região que ali pernoitavam.  A partir daí continuaram o seu estado de degradação até à construção do Palace. No proximo post regresso a história do Palácio.

 

Hoje, é a Fundação Mata do Bussaco (pública) quem toma conta da mata.

 

 

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